O clima natalino se alastra (junto com o calor) por essas bandas e os presentes começam a despontar (gracias cariños!!!). Sexta-feira entre uma Polar e recordações dos velhos tempos de escola ganhei “ O vendedor de passados” (2004), de José Eduardo Agualusa. Não tinha lido nada dele até então, mas já tinha escutado criticas positivas. Também não tinha muitas informações sobre o enredo, além das disponíveis na contracapa. Peguei minha Pepsi Twist 3 ( estou viciada no negócio), meu livrinho e comecei a leitura (são 199 páginas). A única pausa se deu quando descobri quem era o narrador ( mas isso eu falo melhor depois). Enredo: Félix Ventura, morador de Luanda, tem como profissão vender passados falsos: árvores genealógicas, fotografias e tudo mais. A maioria do clientes são empresários e políticos – burgueses emergentes sem passado aristocrático, de maneira geral. Um de seus clientes ( o único efetivo no sentido de participação na narrativa) é um estrangeiro (talvez brasileiro devido ao sotaque) que chega em busca de uma identidade angolana – inclusive um nome. Batizado como José Buchmann, o estrangeiro recebe toda a história da “sua” família pelo nosso vendedor e vai em busca dessa família invetada, acabando por inventar ainda mais informação sobre a dita. Aqui se dá todo um jogo de construção/invenção de memória, que é próprio da história e da literatura destes países colonizados (ou colonizadores), vide Mia Couto e O outro pé da Sereia (2006) ou ainda Lobo Antunes (desafeto do Saramago) e O esplendor de Portugal (1997), só para citar dois exemplos que eu conheço bem. Prato cheio para os estudos pós-colonialistas. Voltando ao enredo: temos ainda como personagens Ângela Lúcia, Edmundo Barata dos Reis e alguns menores (mas importantes) como o Ministro, que está “escrevendo” A vida verdadeira de um Combatente ( Félix o escreve “reinventando” o passado). O livro é claramente uma critica bem-humorada jogando com essas memórias inventadas, com a fantasia e a credulidade na mentira (muitas vezes no inverossímil).
- Temos então um presidente de fantasia-, disse, enxugando as lágrimas com um lenço. – Isso eu já suspeitava. Temos um governo de fantasia. Um sistema judicial de fantasia. Temos, em resumo, um país de fantasia.
(AGUALUSA, José Eudardo. O vendedor de passados. Rio de Janeiro:Gryphus, 2004, p.160).
Mas deixemos isso de lado por ora e desfrutemos do romance, já que eu ainda não falei da parte mais importante de toda a narrativa: o narrador! Aquele que o Adorno já disse que morreu (até o romance já mataram) e que o Benjamin quer que seja lavrador ou viajante. Ele é em primeira pessoa : “Nasci nesta casa e criei-me nela”, assim começa o primeira capítulo intitulado (um pequeno deus nocturno). Lá pelas tantas: “A semana passada Félix Ventura chegou mais cedo e supreendeu-me a rir (…) -Ai, não posso crer! Tu ris!”. Chega a comentar que o seu “aparelho vocal, porém, apenas” o “permite rir”. Não fala. A tolinha aqui pensou “Putz! O narrador é mudo??”. Lá pelo segundo capítulo o narrador menciona a tal da “osga”( lagartixa). Ok. Terceiro capítulo, da chegada do estrangeiro. Félix e o estrangeiro conversam, ele quer um passado novo e blablá e eis que:
Eu, que permanecera o tempo todo no meu lugar habitual, junto à janela, não consegui evitar uma gargalhada. O estrangeiro ergueu o rosto como se farejasse o ar. Tenso, alerta.
- Ouviu isto? Quem se riu?
- NInguém, respondeu o albino, e apontou para mim: – Foi a osga.
[aqui eu fiz uma pausa dramática]
(…)
- É uma osga, sim, mas de uma espécie muito rara. Está a ver estas listras? Trata-se de uma osga-tigre, ou osga tigrada, um animal tímido, ainda pouco estudado. Os primeiros exemplares foram descobertos há meia dúzia de anos na Namíbia. Acredita-se que possam viver duas décadas, talvez mais. O riso impressiona. Não lhe parece um riso humano?
(p.19)
Agora eu saio rapidamente do romance e venho a vida real (?): morar sozinha deixa a pessoa meio estranha, tu começas a conversar com a TV ( bom dia para o bom dia brasil é coisa certa!), com a geladeira, com o computador, etc. E eu descobri, anos atrás, que eu tinha uma lagartixa ( carinhosamente batizada de Tixa) no banheiro! Enorme e albina. Uma época ela sumiu, voltou menor e mais bronzeada. Sumiu de novo e voltou grande e branca! Mas agora ela mora atrás da geladeira. Dia desses cheguei de viagem 6h e ela estava no corredor me esperando. É um doce. E não fala! E ainda bem que não ri como a tixa do Agualusa (medo). Romance de novo: A tixa do romance chega a ser batizada pelo Félix: Eulálio é o nome. Ele conversa e sonha com ela, assim como ela sonha com ele : o mesmo sonho. Nos sonhos tem forma humana (já foi humana em outra encarnação) e são seis os sonhos ao longo do romance, tanto com Félix quanto com o estrangeiro. Conta de outras lagartixas, umas três dezenas que ele conheceu, e “nenhuma tinha lido Shakespeare”, outra gostava de Garcia Marques, outra tinha lido Paulo Coelho. Mas Eulálio trocava “com prazer a companhia das osgas e lagartos pelos longos solilóquios de Félix Ventura”(p.43). E sim, ela lia os livros do Félix quando este os deixava aberto! Fantástico!
Só falta eu decidir qual livro vou deixar aberto para a minha Tixa…
“morar sozinha deixa a pessoa meio estranha, tu começas a conversar com a TV ( bom dia para o bom dia brasil é coisa certa!), com a geladeira, com o computador, etc.”
Acho que varia muito. Como passo a maior parte do meu dia conversando com pessoas, quando chego em casa nem a TV eu ligo – antes ouvia sempre um dentre os mesmos 25 discos fundamentais dentre os mais de 200 na prateleira, mas hoje nem isso.
Acho que morar sozinho é o aprendizado do silêncio.
Tá fazendo alguma cadeira este ano?