Assisti hoje a conferência “A circulação social do livro e a formação de leitores”, ministrada pelo prof. Dr. Max Butlen ( Universidade de Versailles), que trouxe a contradição no que concerne a leitura: muita oferta de livros aliada a uma expectativa pessimista no discurso de formação de leitores. As oportunidades de leitura são democráticas: vários gêneros, vários assuntos sendo tratados e para todas as faixas etárias ( já viram os livros para bebês?). Só que ao mesmo tempo que o número de títulos lançados por ano aumenta, a tiragem desses títulos decai. A produção da literatura, o desenvolvimento da indústria do livro infantil e juvenil expandiu, mas seu leitores não. De acordo com uma pesquisa apresentada pelo professor (um senhor muito simpático, diga-se de passagem), na França, em 1960, se publicava menos de 1.000 livros, hoje são lançados cerca de 9.000 livros por ano.
Como então atrair o público jovem para toda essa demanda de produção? Algumas coisas já foram feitas, ou, principalmente no Brasil, ainda devem ser feitas: bibliotecas mais atrativas, mediatecas (rápido adendo: em Portugal temos BEBETECAS!), o espaço de leitura como um lugar de interação e sociabilidade, onde se tenha acesso a todos os tipos de mídia (adoro o século XXI). Foi chamada a atenção também para os salões, festas, jornadas ( Passo Fundo é um ótimo exemplo), prêmios, feiras que tornam todo o ambiente agradável e convidativo (Milton Hatoum acha que “literatura não convive bem com barulho”, mas daí o viés já é outro).
Na verdade, se lê muito hoje. Mas o que se lê? Para informar, trabalhar, divertir. O acesso a leitura é democrático, mas a crise aumentou. Se no passado tínhamos poucos leitores, livros e bibliotecas, a leitura era sacralizada pelos profissionais da área, hoje está tudo invertido: a leitura dessacralizada, aliada a concorrência das tecnologias de informação e comunicação.
E a escola, hein? Teria que conciliar as práticas, formando o leitor polivalente ( o mito, a lenda).
Ah, tem um pesquisa bem cômica na Inglaterra, que eu não tenho aqui, mas que posso dividir em resumo: a pesquisa foi feita para leitores e não leitores, suas respostas foram computadas separadamente (os critérios de leitores e não leitores ficou no vácuo). Para o não-leitor quem lê “não é feliz”, “chato”, “nerd”, “não tem muitos amigos” e a melhor: “não tira proveito da vida”. Não tem como não lembrar do Bradbury / Truffaut :
Clarisse:Diga-me, por que você queima livros?
(…)
Montag: Livros são apenas …lixo. Eles não são interessantes.
Clarrise: Então por que algumas pessoas continuam lendo se são tão perigosos?
Montag: Precisamente porque é probido.
Clarisse:Por que é proibido?
Montag: Por que fazem as pessoas infelizes”.
Voltando, o mais alarmante: quanto mais escolarizado, menos o aluno lê. A escola, ao invés de formar leitores os afasta! A leitura se tornou uma obrigação, o que acaba por torná-la desagradável. A escola já percebeu isto, vê-se pelos PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais), no Brasil, que são lindos na teoria, com seus incentivos ao trabalho com texto. Mas nem te conto o que as escolas pedem na hora dos estágios…
Ilusões, ilusões…
O livro, melhor dizendo, a leitura, está fisicamente próxima mas distante culturalmente. Não são currículos recheados de boas intenções que vão atrair nossos pequenos infantes para a literatura. O primeiro trabalho é em casa, com os chamados eventos de letramento (pais leitores; livros, jornais em exposição; momentos de leitura) e o incentivo claro. O segundo é na escola, com o professor. Professor que deve ser um leitor e se “desengessar” de velhos preceitos (fichas de leitura da série vaga-lume?). Mas acho que isso todo mundo já sabe…
Aqui mais informações sobre o mesmo assunto.
É triste mesmo. Não sei se vou falar algo já batido, mas o fato é que os livros estão cada vez mais caros. Quem precisa de um estímulo com certeza não vai querer um livro usado, velho, sem atrativos visuais só porque é mais barato.
Enquanto o “povão” não tiver condições de consumir livros, não crescerá o número de leitores.