“(…) se fores embora não vais encontrar outra cidade para viver. Mesmo se encontrares, a tua cidade vai atrás de ti. Vais perambular pelas mesmas ruas até voltares para cá. Tua vida foi desperdiçada neste canto do mundo. E agora é tarde demais, nenhum barco vai te levar para outro lugar. Não há outro lugar” (Milton Hatoum).
Depois de muito adiar, ontem finalmente li o novo livro de Milton Hatoum, “Órfãos do Eldorado”. Foram 106 páginas, sob o vento gélido da segunda-feira, desta novela feita por encomenda para a editora escosesa Conangate, que integra a coleção “Mitos” (com traduções para 16 países). E para alguém que não acredita muito em acontecimentos surpreendentes segundas-feiras, me dei muito bem. Prosa poética pura. Macio e angustiante, o mais erótico (sexy seria uma boa palavra) de todos os livros do autor. Confesso que não esperava algo assim. Só ouvi comentários positivos e bem, “toda unanimidade é burra”, já disse Nelson Rodrigues. Má literatura sabia que não seria, Hatoum tem uma escrita elegante e concisa, talvez seja o mais maduro de nossos escritores vivos. Mas a poesia encontrada foi surpreendete e sedutora. Um pouquinho do livro, para não dizer que não falei de espinhos…
Lembram do Bentinho? Pois, nosso narrador aqui, Armindo Clodovil, lembra um pouco ele: um senhor de idade rememorando o passado, com sua mea culpa e divagações (Hatoum está irremediavelmente atrelado a tradição clássica machadiana, diga-se de passagem. E longe de ser imitação). Armindo relata a um passante a sua (?) história, à beira do Amazonas. É o mito da cidade Encantada, o Eldorado, em uma narrativa de fantasia (?) e realidade (?), que se passa especificamente em Vila Bela. Conflitos familiares, passado devastado, memórias pulsantes, oralidade, diversidade do norte, tempo cronológico situado, ingredientes bases da narrativa hatouniana estão presentes na obra, somados ao louco amor de Arminto por Dinaura. O objetivo era retratar o mito do Eldorado, mas o Hatoum vai além: o amor, a família e a amizade são mitos trabalhados também. Dinaura é a própria encarnação do Eldorado de Armindo. Chegamos ao fim com dúvidas: sonho ou realidade?.
Utilizando livremente narrativas indígenas, estudos sociológicos e histórias contadas por seu avô, Hatoum consegue alinhar Órfãos do Eldorado aos seus outros trabalhos, com um diferencial: a poesia transbordante.
Não leu Hatoum ainda?
Dois irmãos, que tem essa edição mais baratinha aqui também. Consegue ler no computador? Baixa aqui.
Ah, e segunda-feira que vem, 9 de junho, ele estará no Fronteiras do Pensamento. Não tem o passaporte? Ingressos no local, por R$100,00 a conferência.
Milton Hatoum é realmente um escritor de técnica demorada, apurada, e a sua referência ao trabalho dele na sua Página lhe faz jus. Parabenizo-a pela elegância da Página, como um todo.
Abraço.
Darlan M Cunha