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Testando

Lendo o blog da Carol fui parar neste teste aqui:

“Se você fosse um livro nacional, qual livro seria?”

(Sempre que eu vejo “testes” me lembro dos bons tempos da Capricho, Querida, Atrevida… com as revistas só de testes! Diversão garantida para as garoutas dos anos 90).

Resultado:

“A paixão segundo GH”, de Clarice Lispector

Você é daqueles sujeitos profundos. Não que se acham profundos – profundos mesmo. Devido às maquinações constantes da sua cabecinha, ao longo do tempo você acumulou milhões de questionamentos. Hoje, em segundos, você é capaz de reconsiderar toda a sua existência. A visão de um objeto ou uma fala inocente de alguém às vezes desencadeiam viagens dilacerantes aos cantos mais obscuros de sua alma. Em geral, essa tendência introspectiva não faz de você uma pessoa fácil de se conviver. Aliás, você desperta até medo em algumas pessoas. Outras simplesmente não o conseguem entender.
Assim é também “A paixão segundo GH“, obra-prima de Clarice Lispector amada-idolatrada por leitores intelectuais e existencialistas, mas, sejamos sinceros, que assusta a maioria. Essa possível repulsa, porém, nunca anulará um milésimo de sua força literária. O mesmo vale para você: agrada a poucos, mas tem uma força única.

Eu me diverto. E inclusive rompi com Clarice ano passado.

“A Coordenação do Livro e Literatura da Secretaria Municipal da Cultura convida a todos para a primeira edição gaúcha da “Maratona Literária”, evento que celebra o amor pelos livros por meio da experiência de uma grande leitura coletiva. Consagrada em Madri, a Maratona ocorre em espaços públicos, funcionando ao mesmo tempo como oportunidade de encontro de leitores de todas as idades e homenagem aos livros e à literatura. Em Porto Alegre, esse evento já tem data, hora e local para acontecer. O primeiro encontro será na véspera do Dia Internacional do Livro: 22 de abril, às 19h, no Centro Municipal da Cultura (Av. Érico Veríssimo, 307). O livro escolhido para a noite de estreia foi Cem Anos de Solidão, do escritor colombiano Gabriel García Márquez. Nos intervalos dessa prazerosa Maratona, haverá intervenções artísticas e pausa para repor as energias com café e chimarrão”.

Não muito longe de onde eu estava, provavelmente daquele mesmo lugar onde eu ia indo, acompanhada apenas por um piano, a mulher cantava uma velha canção de Vinícius, e por falar em saudade, onde anda você, uma coisa mais ou menos assim, eu não sabia a letra direito, uma canção de ausência, saudade e perda, isso eu sabia, e levantei a cabeça para ouvir melhor, tentando prender os farrapos de versos que se perdiam no ar, levados pelo vento morno, onde andam seus olhos que a gente nem vê, eu fui acompanhando sem cantar, eu não sabia, os trechos que ainda lembrava, era tão antiga, pendurei a mochila no ombro, comecei a andar mais depressa para encontrar aquela voz, e por falar em você, razão de viver, você bem que podia me aparecer, e eu sempre tivera certeza que, desde o início, embora tudo pudesse continuar a ser somente loucura, vontade de voar, eu nada tinha a perder perseguindo uma canção, razão de viver (ABREU, Caio F. Onde andará Dulce Veiga? p.221-222. Rio de Janeiro: Agir, 2007).

Atrás da porta.

Cortázar costumava dizer que o conto está para a fotografia assim como romance está para o cinema. E o mestre argentino podia falar sobre o assunto com autoridade: era um contista brilhante, como Poe, Machado e  Borges (cada um a sua maneira e só para falar dos que tenho mais intimidade). Sendo a narrativa curta teoricamente mais fácil de ser escrita, o mais comum entre escritores é a ordem conto-romance, mas não foi o que aconteceu com Milton Hatoum.

Hatoum publicou quatro romances (ou três romances e uma novela) nos últimos 20 anos e só agora, em 2009, lança um livro de contos: “A cidade ilhada”, lançado dia 25 de fevereiro, pela Companhia das Letras. Na coletânea, reúne textos escritos exparsamente ao longo destes vinte anos  (alguns inéditos e outros já publicados) por isso  a falta de unidade na obra. Mas vamos ao que interessa: os contos em si.

A obsessão por Manaus continua, mas amenizada por cenários diferentes como Paris, Bombaim, Califórnia, Rio de Janeiro.  O que não impede que Manaus acabe dando os ares da graça em algum momento (em quase todos os contos). Varandas da Eva parece ser narrado pelo mesmo narrador de “Cinzas do Norte”, com menções inclusive a Tio Ran, personagem daquele romance. Em Uma estrangeira na nossa rua, narrando um amor platônico, relembramos das mulheres misteriosas, fortes e sedutoras da obra hatouniana (quem leu “Dois irmãos” não pode esquecer do trio:  Zana, Domingas e Rânia. E a Dinaura de “Órfãos do Eldorado”? Incríveis.) Uma carta de Bancroft que está muito mais para crônica do que para conto, relata o encontro de uma carta de Euclides da Cunha, sobre  o Amazonas, em Bancroft. O narrador aproveita para afirmar: “para onde vou, Manaus me persegue”.  Com Um oriental na vastidão a coletânea começa a ficar mais lírica, mas até aqui a coletânea não tinha me conquistado. Em Dois poetas da província temos até o relato de um professor sobre seu encontro com Jean-Paul Sartre (o professor era uma apaixonado pela França). O adeus do comandante dá aquele tom de cor local manaura, com a narração de um barqueiro que leva o caixão de um adúltero. A visita de um almirante indiano é o foco de Manaus, Bombaim, Palo Alto. Em Dois tempos tio Ran reaparece. O toque de conto de mistério fica por conta de A casa ilhada, uma belíssima narrativa. Mas que não se compara a minha predileta (e  que fez o livro valer a pena): Bárbara no inverno. Só para começar, Manaus não existe nesse universo. O esquema é Paris-Rio de Janeiro,  exílio e  incomunicabilidade, com trechos de Chico Buarque: “pra sujar teu nome, te humilhar” “e me vingar a qualquer preço”. A ninfa do teatro Amazonas tem aquele toque lendário-mítico amazonense. Emilie, personagem de “Relato de um certo Oriente” e que faz uma pontinha em “Dois irmãos”, faz uma breve aparição em A natureza ri da cultura. Outro conto que faz o livro valer a pena é Encontro na península: um brasileiro é contratado para dar aulas de português a uma espanhola que deseja ler Machado de Assis. Por quê? Porque seu amante considerava Eça de Queiróz muito superior àquele e não perdoava as severas criticas machadianas para com a obra de Eça. Pura provocação feminina.

Como romancista, Hatoum tem uma eficiência e elegância que me comovem. Como contista, a sua escrita não parece tão eficaz e o excessivo tom memorialístico não ajuda muito.  O que não impede de sermos presenteados por contos como Bárbara no inverno e Encontro na península. Agora é esperar o livro de crônicas que deve ser lançado ainda este ano em edição de bolso pela Companhia das Letras.

E eu não consigo tirar a música do Chico da cabeça…

…dei para maldizer o nosso lar, para sujar teu nome, te humilhar e me vingar a qualquer preço te adorando pelo avesso para mostrar que inda sou tua só para provar que inda sou tua….

Bem, eu vejo o amor…como um escape para duas pessoas que não sabem como ficar sozinhas. É engraçado. As pessoas sempre falam sobre como…o amor é essa coisa não-egoísta, doadora. Mas se pensar bem, não há nada mais egoísta. Eu sei (…)  Se alguém me desse a escolha agora mesmo…de nunca mais te ver ou casar com você…eu casaria com você. Quando você falou antes sobre como após alguns anos…um casal começaria a se odiar…por anteciparem suas reações, ou… se cansarem de suas manias…Acho que seria o oposto comigo. Acho que posso realmente me apaixonar quando sei tudo sobre alguém. O jeito como ele vai partir o cabelo…qual camisa vai vestir naquele dia. Saber exatamente o caso que vai contar numa certa situação (…) Ele sabe aonde vai? Sim. Pelo menos, alguém sabe.  Achei melhor parar de romancear as coisas. Eu vivia sofrendo o tempo todo. Tenho muitos sonhos que não têm nada a ver com minha vida afetiva. Isso não me entristece, mas as coisas são assim. Não sei lidar com o cotidiano de um relacionamento. Ter alguém sempre por perto me sufoca. Você disse que precisa amar e ser amada. Mas, quando acontece, sinto enjôo. É um desastre. Só fico realmente feliz quando estou sozinha. Estar só é melhor do que sentir solidão ao lado de um amante. Para mim, não é fácil ser romântica. Você começa assim… mas, depois de se dar mal algumas vezes…esquece seus devaneios e aceita o que a vida lhe dá.  Tive muitas relações sem graça. Não foram cruéis. Me amaram…mas não havia uma ligação nem emoção. Eu, pelo menos, não senti. Eu estava bem, até ler o seu maldito livro. Mexeu muito comigo, sabe? Me fez lembrar de ser romântica, de como eu tinha esperança. Agora, não acredito no amor. Não sinto mais nada pelas pessoas. Me entreguei a isso naquela noite e nunca mais senti nada daquilo. É como se naquela noite tivesse dado tudo a você e você partiu. Senti que fiquei fria, como se amor não existisse para mim. Eu não acredito nisso. Não acredito. Sabe o quê? Para mim, realidade e amor são contraditórios. É estranho, todos os meus ex-namorados estão casados. Os homens saem comigo, terminamos, e eles se casam. Depois, ligam e agradecem porque lhes ensinei o que é o amor… os ensinei a amar e respeitar mulheres. Acho que sou um desses. Quero matá-los! Por que não me pediram? Eu teria recusado. Mas poderiam me pedir! Sei que a culpa é minha. Nunca senti que era o homem certo. O que significa isso? O amor de uma vida? O conceito é absurdo. Só nos completamos com outra pessoa. É sinistro! Posso falar? Sofri demais e me recuperei. Agora, não faço força alguma. Sei que não vai dar em nada. Não adianta nada. Não dá para viver….evitando a dor à custa…Falar é fácil.

1. Acabei de ler “Quase memória” (Cony) dia desses e fiquei em dúvida se havia gostado ou não. Afirmo, hoje: no me gusta, mas indicaria para várias pessoas. Por quê? O enredo é interessantíssimo e, apesar de não ter me conquistado, é relativamente bem narrado.

Este romance foi o retorno de Cony ao gênero, em 1995. Em 1974,  lançou Pilatos, fracasso de público/critica, considerado por muitos como antiliteratura/romance para leitores radicais, mas o preferido do próprio autor (e o meu).   No prefácio,  intitulado Teoria geral do quase:

Ao terminar meu nono romance (Pilatos), há mais de vintes anos, prometi a mim mesmo que, acontecesse o que acontecesse, aquele seria o último. Nada mais teria a dizer – se é que cheguei a dizer alguma coisa

O romancista tenta explicar esse quase-quase: quase romance, quase memória, quase biografia.  O narrador-autor recebe um embrulho que credita ao seu pai  (já falecido), apesar da não identificação do remetente. A narrativa se contrói em torno das memórias suscitadas pelo embrulho, ao longo do livro in-tei-ro. Tenho muito apreço por romances memorialísticos (literatura sem memória?!), mas faltou poesia por aqui. Oh se faltou. E não me venham com comparações com Amarcord !

(Levarei porrada. Espera só até eu dizer que eu não gosto do Machado romancista.*)

(Pronto falei.)

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2. Madeleine Peyroux lançou dia 10 de março seu novo cd: Bare Bones.  E pela primeira vez veio de compositora! Dez músicas são parcerias e uma (I must be saved) é todinha dela.  Nada surpreendente mas digno. Aquela coisa eu-faço-jazz-gracinha-pós-moderno-e-adoro-biliie-holliday. Brincadeira. A voz dela é linda.  E relaxante.

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* Notem: eu escrevi eu “não gosto”, não “é ruim”. Isso merece um post gigantesco…

Usa a trema, bem.

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Enviado pela nossa jornalista-pesquisadora de plantão. Merci!.

1. Escutem  Hotel Santa Clara.

2. Aproveitem a programação da Sala de Redenção. Um luxo.

Juro que senti cheiro de inverno na porta.

A-la-la-ô

Primeiro post do ano! A-e! Bom,  não é exatamente um post, é mais um tirada da teia de aranha e um afago no queridão aqui para ele e meu nobre leitor  não se sentirem largados. Poderia dizer que andei sem tempo ou que andei com execesso de tempo livre ( e estaria sendo sincera nos dois casos). Mas deixemos as desculpas para quem gosta de dá-las, não é mesmo? Não é o meu caso.

O que interessa: tenho boas novidades!

Primeiro: novo livro do Milton Hatoum sai dia 25 de fevereiro! No site da Cia. das Letras dá para ler um trechinho.

Parece que amanhã aqui, vai rolar um vídeo com o autor falando sobre o livro. Para mim talvez não seja uma notícia assim tão boa, Hatoum já me falou sobre um dos contos: entra na temática da dissertação. Mais trabalho. Lembro de uma amiga que escrevia a dissertação sobre um escritor canadense vivo que me deu o seguinte conselho: “prefira os mortos, querida. eles não escrevem mais”.  Nunca fui boa em seguir conselhos.

Segunda novidade (ótema): Já escrevi aqui e aqui. Estréia prevista para 8 de maio! Cada dia a mais é um dia a menos para o encontro acontecer…

Hora de arrumar a mochila. Cuidado com a serpentina e continuem usando a trema ( somos a resistência!).

Anita

Aos vinte e três anos, era aos olhos do pai uma mulher culta e bonita, porém um pouco introspectiva demais. Ou quem sabe introspecção não fosse o caso dela. Era sociável, não lhe faltavam amigos nem disposição para envolver-se em atividades coletivas. Mas de vez em quando parecia apagar enquanto olhava a vista de uma janela, uma rua, o mar, ou até mesmo uma parede. Contemplativa. Contemplava tudo longamente, inclusive a si própria, e era isso que fazia agora, penteando os cabelos (GALERA, Daniel.  Cordilheira. São Paulo: Companhia das Letras, 2008 )

Minha mais nova narradora preferida, Anita me acompanhou calmamente por dezembro. Valeu a pena. Lindo romance e pqp(!) que saudade de BsAs.

p.s. : O romance faz parte da coleção Amores Expressos.

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