Cortázar costumava dizer que o conto está para a fotografia assim como romance está para o cinema. E o mestre argentino podia falar sobre o assunto com autoridade: era um contista brilhante, como Poe, Machado e Borges (cada um a sua maneira e só para falar dos que tenho mais intimidade). Sendo a narrativa curta teoricamente mais fácil de ser escrita, o mais comum entre escritores é a ordem conto-romance, mas não foi o que aconteceu com Milton Hatoum.
Hatoum publicou quatro romances (ou três romances e uma novela) nos últimos 20 anos e só agora, em 2009, lança um livro de contos: “A cidade ilhada”, lançado dia 25 de fevereiro, pela Companhia das Letras. Na coletânea, reúne textos escritos exparsamente ao longo destes vinte anos (alguns inéditos e outros já publicados) por isso a falta de unidade na obra. Mas vamos ao que interessa: os contos em si.
A obsessão por Manaus continua, mas amenizada por cenários diferentes como Paris, Bombaim, Califórnia, Rio de Janeiro. O que não impede que Manaus acabe dando os ares da graça em algum momento (em quase todos os contos). Varandas da Eva parece ser narrado pelo mesmo narrador de “Cinzas do Norte”, com menções inclusive a Tio Ran, personagem daquele romance. Em Uma estrangeira na nossa rua, narrando um amor platônico, relembramos das mulheres misteriosas, fortes e sedutoras da obra hatouniana (quem leu “Dois irmãos” não pode esquecer do trio: Zana, Domingas e Rânia. E a Dinaura de “Órfãos do Eldorado”? Incríveis.) Uma carta de Bancroft que está muito mais para crônica do que para conto, relata o encontro de uma carta de Euclides da Cunha, sobre o Amazonas, em Bancroft. O narrador aproveita para afirmar: “para onde vou, Manaus me persegue”. Com Um oriental na vastidão a coletânea começa a ficar mais lírica, mas até aqui a coletânea não tinha me conquistado. Em Dois poetas da província temos até o relato de um professor sobre seu encontro com Jean-Paul Sartre (o professor era uma apaixonado pela França). O adeus do comandante dá aquele tom de cor local manaura, com a narração de um barqueiro que leva o caixão de um adúltero. A visita de um almirante indiano é o foco de Manaus, Bombaim, Palo Alto. Em Dois tempos tio Ran reaparece. O toque de conto de mistério fica por conta de A casa ilhada, uma belíssima narrativa. Mas que não se compara a minha predileta (e que fez o livro valer a pena): Bárbara no inverno. Só para começar, Manaus não existe nesse universo. O esquema é Paris-Rio de Janeiro, exílio e incomunicabilidade, com trechos de Chico Buarque: “pra sujar teu nome, te humilhar” “e me vingar a qualquer preço”. A ninfa do teatro Amazonas tem aquele toque lendário-mítico amazonense. Emilie, personagem de “Relato de um certo Oriente” e que faz uma pontinha em “Dois irmãos”, faz uma breve aparição em A natureza ri da cultura. Outro conto que faz o livro valer a pena é Encontro na península: um brasileiro é contratado para dar aulas de português a uma espanhola que deseja ler Machado de Assis. Por quê? Porque seu amante considerava Eça de Queiróz muito superior àquele e não perdoava as severas criticas machadianas para com a obra de Eça. Pura provocação feminina.
Como romancista, Hatoum tem uma eficiência e elegância que me comovem. Como contista, a sua escrita não parece tão eficaz e o excessivo tom memorialístico não ajuda muito. O que não impede de sermos presenteados por contos como Bárbara no inverno e Encontro na península. Agora é esperar o livro de crônicas que deve ser lançado ainda este ano em edição de bolso pela Companhia das Letras.
E eu não consigo tirar a música do Chico da cabeça…
…dei para maldizer o nosso lar, para sujar teu nome, te humilhar e me vingar a qualquer preço te adorando pelo avesso para mostrar que inda sou tua só para provar que inda sou tua….